A relação que o público português tem com o wrestling já tem raízes. Quando Tarzan Taborda o comentava nas manhãs da RTP 1, todos aqueles que estavam na idade da adolescência paravam em frente ao televisor. Depois seguiu-se uma fase de esquecimento mediático, uma autentica travessia no deserto, até que a SIC Radical pegou no desporto que seduziu os pais, deu-lhe a atenção de outrora e "serviu" uma nova moda. Uma vez que este "fenómeno" não acontece apenas no nosso país, a THQ, ano após ano, lança uma nova versão de WWE SmackDown! vs. Raw.
Este ano, a Yuke's colocou ao dispor dos jogadores 50 lutadores dos mais variandos quadrantes do wrestling. Raw, SmackDown, ECW, e até algumas lendas que há muito deixaram os ringues mas que aqui poderão ser desbloqueadas a troco de dinheiro. As restantes novidades relacionam-se com a inclusão de combates segundo as regras da ECW, e um novo modo de jogo, apelidado de 24/7. Este modo acaba por ser a tentativa da produtora em aprofundar o Manager Mode, que figurava nas versões do ano passado. Porém, na prática, este modo acaba por ser a junção do modo Story e do modo Manager.
Em 24/7 controlam todos os passos do vosso lutador de eleição, visitas de caridade, idas ao ginásio, filmagens, participação em torneios predefinidos ou criados por nós, etc. É o extrapolar deste "espectáculo" para fora das quatro cordas. Quem vibra com todo aquele "circo" que se passa no universo do wrestling é capaz de gostar deste desenrolar de acontecimentos. Contudo, aborda tantos temas que acaba por não conseguir dar uma resposta capaz a todos eles. Em grande parte, o "cinzento" que pinta este modo deve-se à sua parca apresentação. Por exemplo, para levarem o vosso lutador a praticar a sua técnica com o microfone não têm que fazer mãos do que darem a respectiva ordem. Ou seja, na prática não há a interacção e a profundidade que vos faça querer viver aquela vida.
A reforçar a ideia da pouca profundidade deste modo, todas estas actividades extra acabam por ter um custo. Se forem ao hospital prestar uma visita a um fã doente, a vossa popularidade aumenta, mas também o vosso cansaço. Outras actividades dar-vos-ão dinheiro, outras há que vos atribuirão uma carga extra de energia. Sem dúvida que estes factores condicionantes seriam interessantes de gerir, se por ventura não fossem tão inconsequentes.
Um modo de jogo interessante é o Hall of Fame, que serve quase de faixa cronológica dos momentos mais marcantes da WWE. Começando no longínquo ano de 1995 com a ida de Shawn Michaels à Royal Rumble e acabando em Junho de 2006, data em que os D-Generation X foram à Monday Night RAW. Inicialmente, só poderão recriar um destes eventos, mas com a vossa escalada na classificação conseguirão viver cada um destes 12 eventos à vossa maneira.
Saltando de fora para dentro do ringue, as coisas não se tornam muito mais animadoras na versão 2008 de WWE SmackDown! vs. RAW. Se por um lado houve uma tentativa de atribuir a cada lutador uma maior veracidade nos seus golpes mais tradicionais, por outro lado, nem sempre esses golpes acertam com a devida precisão. Por exemplo, quem segue o wrestling certamente que já terá visto John Cena a dizer "You can't see me", enquanto agita a mão em frente da sua própria cara; a sua imagem de marca. O jogo imita bem o gesto mas depois acertar o golpe no adversário é que é mais complicado. A detecção dos golpes é tão pobre que, por vezes, mesmo estando a um palmo do adversário é possível falhar.
A contrapor, temos uma mecânica de jogo mais simplificada. Bloquear os golpes dos adversários ou contra-atacar é agora mais intuitivo. O pressionar de um botão do controlador da vossa PlayStation 2 na altura certa é o suficiente para se esquivarem ao ataque do vosso adversário. Dentro do ringue isto traduz-se por um maior dinamismo em toda a partida. Todavia, os mais puristas são capazes de ficar desagradados com estas mudanças, uma vez que retiram algum do desafio que as versões anteriores conseguiam oferecer.
A inclusão da ECW veio servir de balão de oxigénio a uma jogabilidade em plena fase de reestruturação. Como devem saber, as regras da ECW são mais perdulárias para ataques "sujos". Por isso mesmo, o combate com os punhos muita vezes dá lugar ao arremesso de escadas, cadeiras, mesas, placas de madeira e algumas das "armas" são-vos entregues pelo próprio público. Apesar de não revolucionar, SmackDown! vs. RAW 2008 tenta oferecer algo de novo a quem comprar o jogo. Mas mesmo a idade da PS2 não poderá servir de bode expiatório da Yuke para todos os problemas deste jogo, sobretudo ao nível da pobre inteligência artificial, que afecta tanto companheiros, como adversários.
Os "cortes" na versão PlayStation 2 atingem o seu auge quando chegamos ao capítulo multijogador. A remoção do modo online por completo é um duro golpe nesta versão do jogo. Algo inexplicável, uma vez que na versão do ano passado era possível combater na companhia de quatro jogadores em simultâneo dando uso à rede da PlayStation 2. Assim, terão que se contentar com o facto de desancar os vossos amigos localmente através do modo exibição. Mesmo tendo sete modos de jogo diferentes à vossa disposição, dada a já referida ausência da componente online, não podemos deixar de nos sentir defraudados com esta versão mais "magra" de WWE SmackDown! vs. RAW 2008.
Graficamente, não esperem grandes feitos deste jogo. Se por um lado a modelagem dos lutadores está bem conseguida, sendo possível identificar bastante bem quem é quem, o mesmo não se pode dizer do público. Parecem ter sido desenhados numa folha de cartolina, recortados e colados ali directamente. A pixelização chega a assumir contornos ridículos, mesmo para uma consola 128 bits. Outro dos capítulos que oscila internamente é o áudio. A banda sonora consegue injectar no jogador uma dose extra de adrenalina, através de conjuntos como os Chevelle a oferecerem melodias mais pesadas a uma banda sonora que costuma ser composta por sons mais hip hop. No lado "B" deste capítulo temos os comentários, que continuam a causar em quem joga constantes ataques de raiva, com diálogos que parecem saídos de uma telenovela mexicana dos anos 90 e que não fazem justiça ao que se vê na televisão.
WWE SmackDown! vs. RAW 2008 tenta inovar em alguns aspectos face à versão do ano passado. No entanto, seja por incompetência, seja pela maquinaria datada da PlayStation 2, o jogo acaba por sofrer em aspectos técnicos que pensávamos há muito sanados. Some-se a ausência da componente online e um modo principal que se atrapalha nos seus próprios meandros, e temos um SmackDown! vs. RAW aconselhado apenas a quem venera o desporto que fez de Tarzan Taborda um lutador icónico e que possua apenas uma PS2.